terça-feira, 15 de maio de 2012

Preâmbulo





... E o orquestrar matinal dos pássaros
acordava o esquadrinhar daqueles incrédulos.
      "O que será o amor?"

Dos persistentes porquês
rompem respostas tontas
E entre versos e notas
precipita dormente
um abstrato conceito que não é.
Diz-se do amor definições emprestadas,
reticências infindas,
canções e
até o que não é!
Calam-se os pássaros ao elevar do sol
e os niilistas de outrora,
absortos em sonhos,
adormecem cândidos
num chão de poesia e interrogações.

Erika Pók Ribeiro

sábado, 12 de maio de 2012

...


Te quero!! 
Sem "ontens",
sem mês passado, 
sem explicações...
Te quero com toda força que pulsas em mim. 

Essa é minha maior e melhor poesia!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Pudicas



                    Alessandro Allori (1535-1607)-'Venus and Cupid' Montpellier-Musée Fabre



Os alvos peitos da casta moça
Derramavam-se nos abundantes lábios
Do forasteiro.
E os mamilos erigidos
Num rosáceo carnívoro
Escreviam versos concupiscentes,
Tão cândidos,
Que já não sabiam
Quem era puta,
Quem era pura.
Então se recolhiam
Peitos,
Mãos,
Látex,
Bocas...
Voltava-se ao plano onde os panos,
Mornos ou não,
Escondem  peitos, pelos e paixões!


Erika Ribeiro Pók

segunda-feira, 23 de abril de 2012

INVENTÁRIO


                                              (imagem do google images)

Das moedas despencadas junto ao chão,
nada guardo;
Dos cigarros esquecidos pelos cantos,
nada trago;
Das promessas sonâmbulas deixadas ao pé da porta,
nada espero.
Da fumaça contorcida em néon doce,
nada viajo.
Dos lábios embebidos em Baco,
nada sorvo;
Das letras amontoadas em sentenças abstrusas,
nada leio,
nem levo,
nem ligo!
Do silêncio franciscano de seis cordas,
nada violo.
Do que foi, no verão passado, nada fica
e,
por assim ser, também não volta.
O esquecimento o condenará a ser nada em nós.
Cumpra-se, em cada um, o seu quinhão!


Erika Pók Ribeiro


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Alicio




Perdeu-se no vento,
num poeirão de estrelas,
a poesia matreira
que nasceu já “devez”.
Caminhou traiçoeira
fantasiando deboches;
inventou até saudade,
mas dela zombou.
Então, cansou-se do tempo,
dos versos instáveis,
das verdades bem feitas
e sem rima...
Rumou.
Não deixou nem vestígios,
ou  sinais delatores.
Foi-se em silêncio, tal como veio.
Porém sem manhãs,
mãos,
nem olhares.
Fez-se ponto e
findou!

Erika Pók Ribeiro

sábado, 7 de abril de 2012

"Pedilua"

Plantarei um pé de lua na minha janela, ao invés de água usarei versos meninos para regá-lo. Assim, quando brotarem as primeiras flores de luar, os vagalumes virão beijá-las!
E todas as noites, quando o véu da saudade tentar cobrir-me os olhos, arregaçarei minha janela florida, deixarei que a lua brote e que os vagalumes façam festa em meus cabelos!
Erika Pók Ribeiro

terça-feira, 3 de abril de 2012

Anonymus

(google images)


Quem é você que invade
Baús mais secretos,
Revira certezas caducas,
Atiça carbonos entorpecidos
E desconserta as tramelas em ferrugem
Que me guardavam desses
Redemoinhos?

                     Não te sei...

      Achega-se assim,
                   Faz bagunça,
       Rabisca tantas reticências e porquês
                                                     E vai...
Serelepe
A (des) construir outras saudades,
Despertando outros olhos,  nada verdes.
Escurecendo os meus!
                        Quem é você?
Raia o dia;
Já não há mais tempo para
Saber...
            Ser!

Erika Pók Ribeiro



segunda-feira, 26 de março de 2012

Vez em quando


Não me agrada esse silêncio
tagarela!
Quero versos espalhados pela sala e
uma canção enfeitando a madrugada.
Quero dedos retocando
meu sorriso,
lábios quentes recitando
minha orelha
e o cheiro manso que se instala
feito febre.
Quero assim, de vez em quando,
um tanto intenso
e quase insano,
e, de quando em vez,
um pouco mais.
Prefiro o agastar dos relógios,
o extrapolar remitente
dos espaços, dantes vazios,
fazendo rebentar neles
sorrisos absolvitórios.
Erika Pók Ribeiro

quarta-feira, 14 de março de 2012

Ofício da alma


                                 (google images)

Um verso que rompe o silêncio contrafeito das bocas,
traçando convexo um trilhar persistente
e nas linhas da vida derrama o poeta
mentiras-verdades que a alma conhece
e seus sonhos meninos,
a brilhar: vagalumes!
Não cria quimeras,
Nem fala do além,
expõe suas dores,
gozos e
agruras,
estende-os nos versos,
qual chita na feira
E deixa que as almas,
que um dia ainda os leiam,
contemplem as estampas,
e as vistam
(talvez).
Erika Ribeiro

quarta-feira, 7 de março de 2012

Mulher Ser


                                                  (imagem do google)

 
Somos mulheres, seres dotados de particularidades enaltecidas pelas mais variadas expressões artísticas e estudadas pelos diversos ramos da Ciência. Sim, somos mulheres e isso basta!
Creio que a tão sonhada igualdade de gênero, o respeito, a valorização só se efetivarão, de fato, quando nos despirmos completamente dos rótulos; quando ousarmos recusar os moldes.
O que é uma data comemorativa frente à batalha que se trava todos os dias na sociedade, no meio acadêmico, no campo profissional e até na própria família? Uma data apenas. Claro que ela carrega uma forte simbologia em nome daquelas que foram queimadas lutando por igualdade, porém outras tantas mulheres são queimadas todos os dias, de todas as formas que a semântica permite.
Quando nos libertamos das rotulações, certamente a igualdade se fará plena! Aí entenderemos que podemos escolher não usar brincos, blush, salto agulha e mesmo assim ser mulher. Compreenderemos que podemos optar por não casar, não ter filhos, não depilar o “canto” e mesmo assim somos mulheres. Perceberemos, finalmente, que podemos namorar, gozar, outras mulheres sem precisar nos fantasiar de Joãozinho, (ou sermos sim um Joãozinho, se preferirmos), mas mesmo assim sermos mulher.
 A liberdade e a igualdade estão, antes de tudo, em nós e se as exteriorizamos em nossas crenças e condutas elas se farão além do nosso corpo e atingirão as mentes que ainda adormecem no preconceito e na ignorância.

Erika Ribeiro

quinta-feira, 1 de março de 2012

Tinto


Do verso ébrio que rompeu
Na manhã distante;
Das mãos brincantes que se tocaram
Sem perceber;
Do olhar furtivo que muito conta
Sem dizer,
Fez-se a poesia que latejava na noite morna,
E dela, amanheceu impregnado teu perfume
E tuas mãos em minha pele.

Erika Ribeiro

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

    ... desaguam os céus como que para lavar as marcas sangrentas que se impregnam em nós...
                        E eis que a chuva passa, porém as marcas ressurgem mais fortes, despidas de qualquer tintura falsa.

Erika Ribeiro

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

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(...)

Descaminhos que seguem
e retornam a velhos estados de graça.
Caminhos que se esbarram

e do tombo misturam-se sonhos,
desejos meninos
e pitadas ardentes de uma loucura qualquer.
Desse encontro arquitetado pela lua,
confundem-se dias e madrugadas;
suor e saliva;
mãos, pés e almas livres.
Tal qual a embriaguez que também passa,
vão-se os dias apressados
levando-nos por caminhos outros...
E já não somos mais os guardiões
das madrugadas meninas,
nem os devotos espectadores do sol que rompe.
Agora somos apenas cada um,

perdidos nos labirintos de nós mesmos.
Seguir? Retornar?
Há uma saída à direita!
            Até breve!

Erika Ribeiro

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Indefine



Serpenteia em minha mente,
sem melindres nem bons modos,
uma imagem persistente, lambuzada de pecado.
Enrosca-se naquilo que de mim resta

e vai,
coreograficamente, imobilizando meus temores,
amordaçando aqueles discursos
regados a moralismo troncho,
e entorpecendo qualquer ensaio de negação.
E assim, meio como fome, sede ou gastura;
Meio quente, forte, fraco,

manso, morno ou sem ser.
E sempre é.
Vai me tomando por inteira, uma força destemida,
que já é, mesmo sem ser,
vontade de você.

Erika Ribeiro

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Texto de encerramento da oficina "Eu no mundo através das palavras"

No dirigível das palavras
Era uma tarde morna de março quando tudo começou...
Catamos os feijões tal qual nos ensinou João Cabral de Mello Neto, num processo constante de escrita e reescrita das nossas vozes.
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco
.
Contemplamos as várias janelas de nossas vidas, assim como fizera Cecília Meireles, e mudamos as paisagens, sempre fazendo valer nossas ideias.
Descobrimos o poder das palavras, o prazer escondido nas crônicas e contos lidos e dramatizados, assim como se escondia a lagarta na maçã. 

Tantas vezes rimos, opinamos, expusemos nossas dúvidas e certezas. Invadimos os mundos de Clarice Lispector, Rubem Braga, Luis Fernando Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros. E descobrimos ainda que a literatura pode caber nos 140 caracteres do twitter.
Puxados pelo cordão da literatura popular, fomos até o Assaré de Patativa e num galope à beira mar redescobrimos o nordeste nas sextilhas do cordel. Fomos emboladores, poetas de improviso, aprendizes do repente. Colocamos nos cordões da nossa imaginação o mundo que queríamos ter; os agentes de transformação que deveríamos ser.
Dos braços acolhedores do Velho Chico partimos até o Planalto Central, onde compartilhamos nossas vozes com outros tantos cuidadores de palavras.
Porém, eis que no caminho havia uma pedra, havia uma pedra no meio do caminho... Não eram o caminho nem a pedra de Drummond, era a pedra da modernidade que rouba a atenção dos jovens afastando-os da leitura e quebrando pés. Essa pedra era uma TV, que por dois meses impediu-nos o caminhar, mas não o sonho!
E eis que novamente, movidos pelas Sete Faces de Drummond, colocamos em versos os nossos sonhos, indagações acerca do nosso mundo que hoje, aqui, repartimos com vocês!
Através das palavras, construímos um elo de interação, produção e consciência participativa. Através delas , reconhecemo-nos como parte ativa deste mundo! Assim, das palavras que nos uniram em março de 2011, até estas que agora encerram o nosso ciclo, algumas delas ficarão em nossos corações: valeu à pena!
Obrigada a todos vocês, meus alunos e companheiros de jornada, partes essenciais neste projeto e nas minhas conquistas profissionais, que vocês tenham a leitura e a escrita sempre como ferramenta de inserção e atuação na sociedade!
Encerro esta minha missão com a alma em paz pelo dever cumprido e com umas pitadinhas de saudades de tudo que vivemos!
Erika Ribeiro
Juazeiro, 12 de dezembro de 2011.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Plantando poesia

      A leitura é uma ferramenta importante de libertação e de crescimento. Ao unirmos leitura e escrita num processo criativo e afetivo estamos possibilitando o desenvolvimento intelectual e social dos envolvidos. Essa foi a missão da oficina de leitura e escrita "Eu no mundo através das palavras", tornar os jovens envolvidos cidadãos atuantes, críticos, imaginativos sem perder a essência poética.
      Hoje celebramos o cumprimento desta missão, com a I Mostra do Conhecimento Literário, o lançamento do Jornal Mãos do Futuro e do blog Nosso Espaço (www.nossoespacoph.blogspot.com), além da exposição de painéis. Foi um momento de júbilo para todos da oficina e para toda a Escola Paul Harris.
     Além dos lançamentos, tivemos ainda sarau com a participação da UBE e o encerramento apoteótico com as ilustres presenças do cantador e poeta João Sereno e do sanfoneiro Rennan Mendes.
                        

     
  

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Janela azul




Descerro a janela azul do meu pretérito  e encontro lá historinhas em stand by, fragmentos de sentimentos embebidos em éter e vodka, e, rostos ainda não vitimados pelos calendários.
Respiro...reticente oscilo em dar prosseguimento àquelas cenas, mas já não há mais tempo! Lá fora um moço torrado do sol grita: "olha a melenciaaa, estão bem vermelhinha, estão bem fresquinha", ao meu lado estremece o celular com mais um sms daquela amiga insone, ao mesmo tempo que na tela obtusa do pc surge um aviso de mais um post (tomara que sejam devaneios poéticos de um(a) sonhador(a)...).
Mesmo a contra gosto a vida prossegue, amparada em muletas, nada modernas.
  ...

Erika Ribeiro

sábado, 29 de outubro de 2011

Carlos Drummond de Andrade.

                                                   (vídeo disponível no youtube)

Mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo...

O quê?

                                                                       (google images)
O que agora me banha a face, é o mesmo
que a boca salga num destempero atroz.
O que me rouba o ar e a traqueia entala,
é o mesmo que esgana o peito, que a doer deságua.
O que atordoa os pensamentos, fundindo o aço
do meu crânio duro, é o mesmo que paralisa
o músculo inerte.
E o que é?
Não sei!
Só sei o que não é!

Erika Ribeiro

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Excertos de uma historinha que quer nascer

                                                        (google images)       
(...)
Ainda em tenra idade aprendera o valor dos monturos. Era lá, naquele universo grandioso, porém repudiado pelos grandes que se encontravam tesouros inigualáveis: cacos de pratos e xícaras com desenhos lindos, sandálias com salto arrancado, bonecas sem pernas... Preciosidades que só aqueles olhos infantis eram capazes de enxergar.
Foi numa manhã de sol brando - naquela época o sol não era tão perverso- e ventinho fresco soprando os cabelos lisos cheios de nós, que ela encontrou a bolsa azul. Era um azul tão lindo, o azul mais azul dos azuis que ela conhecia. Não era como o céu, nem como o vestidinho de gatinho que sua mãe fizera... Também não era como os olhos do seu avô. Era outro azul, sabe?
A tal bolsa tinha um cheiro diferente, estava meio ressecada, mas era linda! Tinha um botãozinho prata que ainda fazia tic-tic; mágico! E era só abri-la que lá vinham tantas histórias, amigos imaginários... E viajávamos por tantos mundos,  cujo portal era o monturo.
Os grandes gritavam para que ela saísse do lixo, que ali só tinha porcaria, que poderia ficar doente, pegar lombriga... Que nada!! Como eram bobos... De certo nunca tinham encontrado jóias lá. Mas também, como encontrariam? Nunca tinham tempo para viajar por aquele amontoado de histórias.

(...)
Erika Ribeiro

domingo, 16 de outubro de 2011

Pés, para que te quero!

São os pés que devem estar em perfeita consonância com a alma; não o contrário! Portanto, não se espante com meu voo!

Erika Ribeiro

sábado, 15 de outubro de 2011

Poema II


Fundo falso


Não tente me conhecer pela imagem que teus olhos miram;
Ora, não creias em miragens!
Não tente me decifrar pelos versos que finjo criar,
e tu, finge interpretar ao pé da letra!
Não tenho pés...nem meus versos.
Eles alojam-se entre as linhas forçadamente retas
e eu escondo, ou mostro-me, entre tantas personalidades
fingidamente certas!
Não queira encontrar-me em vitrines, estandartes;
Meus sonhos não cabem em espaços finitos e,
Minha alma, em combustão eterna, não se fixa
a nada,
a ninguém!
Não desperdice os rótulos do  teu mundo rotô
tentando identificar-me!
O que sou está nas minhas entranhas,
nas crateras mornas dos meus eus,
no obscuro e resplandecente recôndito de minh'alma.
Sem pernas, sem pés, sem marcas!


Erika Ribeiro
(imagem do google)




Raios


(A Rennan Mendes, pela semente que faz-se vida)



A bruma estampa matizes quentes

daquele que virá.

Descortina o vale, além-mar,

sem fim...

E, vindo das pedras que salgam os sons,

espalhando-se em procissão pelas veredas

da melodia;

Vai germinando viçosa

a semente da luz!

E virá belo!

Resplandecerá seu clarão pelas encostas

acinzentadas e acres do sertão.

Trará em sua áurea de anjo menino

a candura e o brilho mágico dos vagalumes,

quem em sinfonia perene

celebrarão o abrolhar da vida!


Erika Ribeiro








quarta-feira, 7 de setembro de 2011




XI


Noite passada, havia um poema latente

Que soluçava inconsolável,

Percorrendo intermitente o caminho sinuoso

Entre o córtex e a língua ébria.

Cutucou, gritou, esperneou ... e nada!

Nem a boca tramelada,

Nem a mão amendrontada,

Salvaram-lhe do sótão úmido.

Já cansado, o tal poema, adormeceu entre as ideias,

Fez morada num recanto, onde pudesse ser revisto.

E foi!

Quando já dormia a lua

E no céu uma bolha quente, mais crepta que clareia,

Eis que salta da garganta um verso solto,

Rebelado.

Arrebata as mãos e vai, desesperadamente,

Pousar neste retalho, em linha reta.


Erika Ribeiro.

sábado, 16 de julho de 2011

Eurides Conceição




Houve um tempo em que as nuvens daquele céu tinham formatos variados. Eram seres que eu nunca tinha visto, mas de algum modo sabia o que eram: leões, tigres, duendes, fadinhas, sacis... os carneirinhos é que nunca consegui ver lá no meu céu. Naquele tempo, carneirinhos e cabras estrepoliavam lá no terreiro. Eu também!


Ali, bicho e gente se misturavam ... conversavam harmoniosamente. Tantos segredos contei aos cabritos e às sabiás magrelas que roubavam carne estendida no pau da cozinha. Eu era comparsa nos seus crimes inocentes. Talvez, eu as acobertasse na tentativa de me redimir do mal que outrora lhes causara, quando colocava pedrinhas miúdas no bico dos sabiás filhotes.


Nesse tempo, que o calendário tirano levou, as vozes do galo e do jumento eram os relógios mais eficientes. Assim como pisar na cabeça da própria sombra indicava a hora do almoço: bode, feijão de corda, abóbora, maxixe...nham, nham, nham! O cheiro do café fresquinho, de Sinhá Uride, se espalhava toda tarde, convidando a todos pra sentar no banco da cozinha e degustá-lo numa prosa bem quente. Na Quaresma, os santos encobertos de roxo; no Natal os cânticos de louvor , e ela lá!


O rádio , sintonizado na AM, transmitia em suas ondas e Khz as informações do mundo lá fora e trazia as canções "mais mais da semana". De Gonzaga a A-Ha, de Kid Abelha a Scorpions...tantos mais. Ao meio-dia ela sempre ouvia o "Repórter Somassa" e para cochilar, as canções da tarde. Várias vezes fugi, enquanto minha casa dormia, para vê-la, através da janela, cochilando junto ao rádio.


O sol pendia no seu trajeto final e lá ia eu, rumo ao paraíso. Casarão de alpendre alto, cheiro de café torrado, bolinho branco de tapioca, pratos lavados na gamela e a figura mais especial de todas: Sinhá Uride, cuidadora das almas, dos corpos enfermos, dos filhos sem mãe, das cabras paridas, dos cabritos enjeitados, das ilusões das crianças. Alimentadora dos meus sonhos e da minha gula pelos divinais bolinhos brancos fritos na hora. Regou em mim um amor tão puro, guiou meus olhos para contemplar a vida de um modo tão simples e belo. Sem rouge, batom, scarpin ...a vida pura, rica em essência. Ela me ensinou que a liberdade é o maior trunfo da humanidade, que casamento e filhos a gente escolhe tê-los, ou não, e mesmo assim é feliz. E, principalmente que a caridade é a forma mais sublime de amar.


Hoje, este tempo arrancou a poesia daquele outro, destruiu as evidências materiais, mas em minh'alma não ousará tocar. Nada apagará um amor que nasceu puro, nem tirará da alma as lições que um tempo ensinou. Não há 1mg de veneno que mate honra, caráter e amor.



Erika Ribeiro.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Companheira indesejável




Companheira indesejável



Que segredos terá pra me contar,

a muriçoca tagarela que importuna o meu ouvido?
Trará-me os versos que busquei o mês inteiro,

e ainda hoje, infeliz, não encontrei?

Sem pudor sapateia em minha cutis,

retira-me o sangue numa ânsia sem fim.

Sai voando toda tonta, a desgraçada, e nem agradece

o néctar que roubou de mim.

Outra vem e se bota a cantarolar,

desafinada, magricela, insolente...

O que esta tem a me falar?
Falará do que sentiu ao passear por teu ouvido,


pisoteando tua pele clara e pousando nesta boca que beijei?
Muriçoca...
Não me venha com mentiras,

Baixe esse tom, que minha mão é chumbo,

muito embora minha alma saltite leve.


Erika Ribeiro






No meio do mato





No meio do mato

Criei-me no mato, entre os galhos torcidos do sertão,
Cheirando os aromas inigualáveis do alecrim, cambará, pereira,
Contemplando as cores que o cinza da seca camufla,
mas que basta o sereno
de março pra lhes avivar;
Nasci no mato, na caatinga aprendi a caminhar;

Conheços as veredas, atalhos e , portanto,
sei livrar meus calcanhares dos espinhos;

Não me impeçam de voar!
As asas que a lambu me deu, assim como as magias que já vivi,
ninguém me toma.
Não há cerca que me impeça de trilhar os caminhos que escolhi.

Farei novas rotas, se preciso.
Se as cabras sempre mudam o trilhar e não se perdem,
por que eu me perderia?

Erika Ribeiro

segunda-feira, 18 de abril de 2011

(imagem do google)


" DO CONTRA"


Os mais entusiasmados sempre dizem que é maravilhoso acompanhar o crescimento de quem gostamos, que é uma experiência extraordinária vê-los, crescerem, tornarem-se homens/mulheres importantes. Eu, na minha essência de "do contra" não concordo prontamente. Claro que há uma satisfação grandiosa em acompanhar o voo independente de um pássaro que cuidamos ou, que só admiramos em silêncio, porém, não há nada de mais doloroso que vê-los crescerem em estatura e personalidade, e aceitá-los do modo diferente do original, que decidiram ser.

Podem rotular-me de egoísta, eu não me importo, mas não venham com ensinamentos falhos...porque dói estar na platéia da vida de quem amamos ou somente admiramos.

De repente, aquela pessoa que você conheceu amarela, cilíndrica, ou somente azul celeste, resolve mudar de cor, de forma, de cheiro... e você, evidentemente, não pode opinar; a história é dela e ela pintará com a tinta que quiser, todavia, a mudança de alma é que mais me preocupa... que mudem as estampas, os aromas e sabores, afinal, mudar é preciso, mas que a alma que certamente me cativou mantenha-se incólume, brilhante, com efeito de imã.
Erika Ribeiro - POK

sexta-feira, 8 de abril de 2011

(Imagem retirada do Google)



Peço licença ao mestre Arnaldo Antunes para divulgar, aqui, uma de suas canções. É que neste instante eu também tenho a sensação de que


NÃO VOU ME ADAPTAR


Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia

Eu não encho mais a casa de alegria

Os anos se passaram enquanto eu dormia

E quem eu queria bem me esquecia

Será que eu falei o que ninguém ouvia?

Será que eu escutei o que ninguém dizia?

Eu não vou me adaptar, me adaptar.

Eu não tenho mais a cara que eu tinha

No espelho essa cara já não é minha

É que quando eu me toquei achei tão estranho

A minha barba estava desse tamanho.








Até os 26 anos eu ainda achava que podia mudar o mundo, depois dos 27 descobri, com trizteza, que o mundo havia me mudado. Cruel ilusão dos números!

(Imagem retirada do Google)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

(Imagem do google)

Todos são lindos na juventude, aí chega o tempo com sua fúria nua e destrói todos os adjetivos!





quinta-feira, 13 de janeiro de 2011




Vaga...


Por onde vaga o vagalume?
Será que vaga ou se deixou aprisionar em um cesto
de ilusões cinzentas?
E, se vaga, ainda estará aceso o seu lume?
Por onde vaga o vagalume?
Ou vago eu, em ilusões perdidas nos verões passados?
No vago que se agiganta em meu íntimo,
restam fósseis de uma historinha tonta
em que protagonizavam entorpecidos
a mariposa e
o vagalume.


Erika Ribeiro


terça-feira, 30 de novembro de 2010

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

(Imagem do google)


"- E aí doido, vai no lance lá?

- Vou não, oh. Vai dá não, otário!"


Eis o diálogo que ouço ao transitar por um corredor onde jovens conversavam animadamente.

De súbito pensei não entender, afinal aqueles adjetivos tão perjorativos haviam sido substantivados naquele contexto e o seu uso havia se naturalizado naquele grupo social. É assim a línguagem; um processo em evolução que acompanha as transformações sociais, históricas, dos seus usuários. Sim, evolução. Porém, tal discurso não me pareceu nada evolutivo.


Minha data de nascimento diz que não sou tão velha assim, portanto não é uma questão de "tempos", o fato é que as pessoas não nutrem mais o respeito e a polidez com o seu semelhante. Usam termos ofensivos com a mesma espontaneidade que simbolizam coraçõezinhos com as mãos. E vão por aí ofendendo e criando neologismos nada evolutivos.


" Oh doido, num me acostumo com isso não!"


Erika Ribeiro

segunda-feira, 11 de outubro de 2010



De quem será que fogem as nuvens que correm no céu do meu quintal?
Quem será que lhes mete medo, fazendo-as saírem esfarrapadas ao vento numa pressa sem fim?
Passam... Espalham-se...Separam-se!
Cuidam para não deixar rastros, mas os farrapos dos
Teus assanhados cabelos vão ficando pelo caminho de Santiago,
Numa trilha macia de algodão doce celeste.
Ora camuflam a lua, ora escondem-se dela
Num vai e vem sem fim.
Estariam as nuvens brincando de esconde-esconde? Ou quem sabe haveria raposas no céu?
Não sei...meu quintal é pequeno demais para caber respostas sobre o céu.


Erika Ribeiro
20/09/10

sábado, 25 de setembro de 2010

CRÔNICA POLÍTICA

(Imagem retirada do google em 26/09/10)


Comércio ilegal


Em todo ano eleitoral as cenas se repetem como os filmes da Sessão da Tarde: são candidatos aos milhares, alguns mais parecem recém saídos das cavernas; são jingles completamente ridículos, que de tanto serem repetidos nos causam náuseas; são promessas velhas, renovadas a cada pleito e que jamais serão cumpridas e outras que de tão esdrúxulas mais parecem uma obra do Dadaísmo; e um horário político que se assemelha a um espetáculo humorístico. Você, caro leitor eleitor, sabe bem do que falo.
Porém, em meio a tantos motivos para reclamar, o que mais me irrita, neste período de fato incômodo, é essa deslavada comercialização de homens e consciências e a consequente subestimação de nossas capacidades. Em cada cidade, região, aleivosos líderes políticos vendem votos de seus conterrâneos em troca de benefícios, regalias, um status mórbido que se finda após o escrutínio (quase sempre). Tais “líderes” garantem aos SEUS candidatos mantenedores uma vasta votação, e passam a importunar os eleitores persuadindo-os a votarem nestes.
Não há nada mais ofensivo, e tosco, do que um pedido de voto. O “vote em fulano”,” Dê um votinho em sicrano”, além de ser uma clara tentativa de subestimar a inteligência do outro é, sem sombra de dúvidas, uma afronta à democracia. Seria mais interessante apresentar o candidato, suas propostas, seu histórico, mas é mais fácil manipular, iludir, “cegar” o povo.
Vendem - nos aos montes, tal qual o sertanejo vende suas cabras magras, famintas, “de porteira fechada”, ou seja, todas as suas cabras, cabritos e bodecos do chiqueiro. E se uma cabrinha, digo eleitor, ousa questionar ou negar-lhe o voto, é bravamente repelido, como se suas pretensões de voto fossem chaga mortal.
Contudo, bem mais para informar que para contrariar, peço aos líderes marchantes que tenham me vendido ou me incluído em seus currais, que, por favor, me tirem de suas listinhas. Eu já tenho discernimento, Senhores, sei bem o que quero, e essas suas cercas e porteiras são demasiadamente frágeis para me prenderem.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

POEMINHA VIRTUAL





É transcendental o poder da poesia, ela ultrapassa as barreiras criadas pelo homem e até as impostas pela natureza. Foi o poder da poesia, somado à força da internet que me fez romper barreiras físicas e criar um poeminha virtual, em parceria com Fidel , e com a mão esquerda. Não há limites para a arte, para a vida...


PENSAR EM REDE


Eu sei que as vezes eu sou alguma coisa, que eu nem sei
que penso que sou quando paro pra pensar,
para perceber que não devo parar pra pensar.
Mas pensar pra quê,
se o que sou ultrapassa os limites do pensar?
Não é um bom raciocínio,
ou seja,
se for parar pra pensar...
Percebe que parar é deixar o tempo correr em vão,
E viver não carece de paragens, pensamentos...basta viver.
Por isso eu choro, canto, digo que nada está perdido.
Sou todo tudo,
e sou nada
dentro desse infinitivo de ser sem saber o quê,
sem compreender os sinais...sem destiguir os rumos...
é seguir sem prumo,
mas é VIVER.


( Erika Ribeiro e Victor Fidel)

domingo, 19 de setembro de 2010

CRÔNICA III. CRÔNICA??




DOS SIGNIFICADOS




Amor. O que será o amor?

Diz a gramática seca: É substantivo masculino abstrato! Não tem existência própria, necessita de quem o sinta. Enquanto que as figuras de linguagem replicam em metonímia: É ato sexual!

Noutro lado grita a psicologia: Forma de interação psicológica ou psicobiológica entre pessoas.

Os românticos, seres atemporais, murmuram entre notas musicais: O amor é o sentimento sublime que une pessoas eternamente.Na literatura não há quem dele não fale! Muitos morreram em nome desse sentimento, substantivo, processo interativo...
...
Eu não sei quem é o amor, o que é, como é... Agora não me interessa a ele ser apresentada, vivemos tanto tempo sem nos encontrarmos, não seria agora que nos desejaríamos. Creio na filosofia do Titãs: Não existe amor, não existe amor; somente provas de amor!



*Imagem retirada do google


sábado, 18 de setembro de 2010

CRÔNICA II

(Imagem retirada do google)


DOS CONCEITOS


Ontem, enquanto conversava com um amigo de longas datas fui surpreendida com o que dele ouvi. Falava-lhe das minhas angústias, das dores físicas e d’alma que habitam em mim, dos fracassos que parecem avalanches e dessa sensação estranha de estar morrendo intimamente, um pouquinho a cada dia, enquanto o corpo finge estar vivo. Confidenciei-lhe minhas mazelas na remota esperança de ouvir uma daquelas frases de auto-ajuda ou, o que seria mais provável, um sacolejo daqueles que nos mandam à vida com a mesma pressa e força que a mãe nos manda levantar.
Qual não foi a minha surpresa quando me disse:
- Você está muito poética! Encara a vida!
De súbito não compreendi, passado o susto ainda ecoava em meus ouvidos “Você está muito poética ! Você está muito poética ! " Como poderia estar poética se falava de frustrações? Derrotas? Ele equivocara-se, definitivamente.
Hoje, em fria noite, o acaso faz-me erguer os olhos e redescubro a lua que há tempos não via. Só aí compreendi... De fato eu estava/ estou muito poética. A partir daí percebi o quanto são falsos os conceitos, como se camuflam em cada ser, em cada mundo, em cada lua! Ser poética é tão transcendental que chega a abranger os mais variados valores semânticos e humanos.
O ser em si já é infinito; e, a poesia; a poética, estado de graça de quem poetisa (até na dor) é tão incomensurável quanto estas dores que me encarceram e essa lua que se doa sobre mim.

sábado, 24 de julho de 2010

NOVO BLOG


Pessoal, este é um segundo blog, cansei do primeiro. Os poemas e textos do antigo continuam por lá, apreciem sem moderação essas duas casas da imaginação.

www.noitesevagalumes.zip.net

CRÔNICA



Diálogos com a consciência

O sentido da existência humana suplanta qualquer tentativa de explicação, seja ela científica, religiosa ou filosófica. Existir é um ato extremamente íntimo e coletivo simultaneamente. É uma obra que depende do eu e de todas as outras pessoas do discurso: tu, ele, ela,vós e eles.

Foi numa terça-feira comum, azulada como eram até então todas as outras, que descobri que existir é algo infinitamente complicado, não que eu tenha descoberto por vontade própria, fui persuadida a isso.

Funcionária pública assalariada. Livro de ponto, entrada e saída. Salário tristonho na última terça do mês. Esse era o dia; aí começa minha via crucis.

Na agência bancária uma fila sem pernas. Depois de horas fingindo-me árvore, veio a primeira informação: "você não existe". Indo ao setor burocrático (ir)responsável pela minha suposta existência, ouço uma voz mecanizada, programada para não dizer coisa alguma:
- Você?! Você existe?! Você não existe!
De súbito parei:

-An?! Como assim?! Eu existo, olha eu aqui! Documentos.Assinaturas. Ei, moça...psiu...
- ...
- ...
Nos dias que seguiram continuei sem existir. Não sou um número como querem meus senhores. Não tenho um registro de série, código de barras... sequer os números da besta estão tatuados em minha testa cravejada de rugas e espinhas.


Belo conflito existencial. Voce, ilustre leitor, deve estar cismando: " Que me interessam os seus problemas? Já tenho os meus". Sou forçada a concordar convosco...

É que a partir dali não bastava a minha auto-existência, essa minha consciência tagarela. Era imperioso que os outros autorizassem a minha existência. O meu existir necessitava de ofícios, requerimentos, carimbos...

Nunca a gênese divina fora tão burocratizada, e eu, já em dúvida passei a perceber que de fato eu não existia; nada existia ... Nem mesmo esse verbo, em seu pretérito imperfeito, amenizava a minha agonia.

Outras terças, agora em cinza, passaram até que finalmente o telefone tocou e do outro lado alguém perguntou por mim. Sim, mas quem sou eu? Lá na agência bancária uma máquina nada simpática confirmou que eu existia. No caminho de casa um bebê, ainda banguelo, me sorriu... Eu começava a existir. Dentro de mim uma força estranha pulsava, desejo de gritar toda essa minha existência amordaçada. Contentei-me com um picolé de umbu.


Ah! No setor burocrático não há parecer, resposta, portaria... Não importa! Cá dentro sei que existo!


Erika Jane Ribeiro